domingo, 6 de março de 2011

Nas Batidas




 Era apenas mais uma festa normal, de amigos conhecidos e aquela coisa toda. Me arrumei preguiçosamente, um perfume, uma roupa bacana... não esperava literalmente nada. Beber um pouco, talvez? Tirar umas fotos, beijar as garotas peitudas, zoar com os meus amigos... era mais uma festa, iguais às das semanas anteriores, iguais às que eu sempre fui, normais...

 A música alta ensurdecia, me movia praticamente por impulso. O copo de batida na minha mão estava quente, a nuvem de fumaça e as cores que nela refletiam pra mim nada significava. Encostado na parede, movendo-me um pouco pra cá, um pouco pra lá, meu olhar morto se fixava no DJ do outro lado da sala, um cara barbudo, mais ou menos como eu, curtindo a música, e todos dançavam... aí eu vi ela.

 Ela? Ah... eu nem posso descrever como ela era linda, seu cabelo castanho e seu jeito tímido denunciava a falta de vontade de estar ali, mas mesmo assim, a ingenuidade e delicadeza de seus gestos era como o sol que batia de manhã na minha janela, fresco, luminoso, que me mostrava que mais um lindo dia começava... Ah... ela! Seu vestido azul suave com botões dourados se movia com graciosidade, uma graciosidade que eu nunca havia visto antes.

 Os amigos dela ficavam em volta, conversando, e por um momento ela riu... eu não pude ouvir a voz desse canto maravilhoso, mas senti que era como um coro de anjos, uma coisa que inundava meu peito, tantas emoções apenas por vê-la!

 Como um ímã, seu olhar se voltou para mim, e ela me deu um lindo sorriso. Era tudo o que eu precisava, para chegar, conversar, oferecer aquele copo de batida quente que suas mãos delicadas receberam como se fosse um presente...

 A música continuava, a batida fazia o chão tremer, e eu não conseguia ouvir sua voz direito. Ela se esforçava pra falar, eu apenas lia seus lábios, não sei se por prazer de vê-los se mexendo, ou pra realmente entender suas palavras, até que ela me puxou para a varanda. Chegando lá, afoita, falou: “qual é seu nome?! Hahaha, parece até que não me escuta, mas também com essa música alta né?”... A conversa seguiu, aconteceram risadas, sentamos em uma mesinha, continuou-se a conversar, o clima veio, o beijo veio, meu peito se encheu de alegria, e seu telefone escrito num guardanapo amassado foi guardado cuidadosamente em um lugar que eu nunca poderia perder...

Eu poderia agradecer ao meu amigo que fez a festa e a convidou, mas... não sei se minha mágoa deixaria. As semanas seguintes foram maravilhosas, cada dia que eu a conhecia, mais eu a desejava, seu modo de pensar das coisas, seus gostos, seu sorriso, seu cabelo, seu cheiro que ficava preso nas minhas camisas, os filmes que nós vimos juntos, nosso passeio de carro, e ela sempre presente em meus sonhos, meus desejos... Deus me mostrava assim, o que era alegria, para, 3 meses depois, arranca-la de mim...

 Não sei exatamente o que aconteceu, ela foi ficando estranha. Dizia estar balançada, havia outra pessoa que ela gostava, e nisso tudo eu me sentia preso, amarrado, sem saber como poderia agir. Tentava apóia-la, dizer que ficaria tudo bem, por dentro, eu gritava “por favor, não me abandone!”... O tempo passava, e passava, o tic-tac interminável do relógio do meu quarto me alertava que logo acabaria, e eu, cego, preferia não acreditar...

 Manhã de sexta feira, recebi uma mensagem. Longa, longa demais pra que os meus olhos pudessem ler sem ficar encharcados de água... ela, ali, alegava que me deixaria. Deixava subentendido, claro, ela não sabia dizer não. Se desculpava, dizer que chorou ela disse, dizer que sofreu ela também disse, mas naquele momento, eu acreditava apenas que essas palavras eram um consolo pra ela tentar igualar o sentimento de perda que eu tive, quando a perdi...

 E ficou assim. Eu nunca, nunca pensei em abandona-la, aliás, eu ainda penso que ela pode se arrepender de continuar com um cara que não a merece, e voltar, correndo, pros meus braços, me chamar pra varanda, com um copo de batida quente nas mãos, e dizer seu telefone, e sorrir pra mim, me mostrando que o sol ainda existe... 


(Mais um post feito por uma amiga, a Mari, espero q tenham gostado do conto, mais estão por vir !)

Um comentário:

  1. Gostei bastante do texto.. sabendo que tem coisas ai parecidas com que ja vivi e ja contei pra mari.. acredito que tenha incorporado coisas que ja contaram pra ela nesse texto.. mas, texto muito bom! :D

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