domingo, 13 de março de 2011

Rua aporé, número 267.

Rua aporé... número 267...

Um endereço. Duas casas. Uma ao lado da outra.

Quando eu era menina, passava todos os dias por essas casas. Sombrias, destruídas, cada uma com uma árvore seca, sem folhas, galhos finos e escuros, abrigo de morcegos ao cair da noite.

Quando eu era menina, passava por elas e olhava, como quem quisesse (e pudesse) fazer um raio x do que existe lá. Como eu gostaria de ver, ao menos uma vez, alguém entrando lá! Um ser humano, vivo! Dentro da minha cabeça, apenas vultos, fantasmas, vampiros e mistérios olhavam pela janela e me encaravam, me chamando pra entrar, pra bater a campainha...

Um certo dia, com meus nove anos de idade, me mandaram comprar uma vassoura. “Longa e forte, por favor! Não vá trazer produto vagabundo!”, e lá fui eu comprar a vassoura que deveria sustentar o peso de um elefante sem se quebrar. O supermercado era na frente desse calabouço sombrio, e, armada de alguma coragem (uma vassoura para me defender, um mascote imaginário, um escudo e uma nota de dinheiro que poderia virar um adesivo explosivo), bati na campainha dessa casa. Meu coração palpitava, saía pela boca, as minhas mãos molhadas, excitadamente esperavam uma oportunidade para enfrentar o desafio da minha vida. Quem saber alguém, uma bruxa, apareceria no portão e me raptaria? Quem sabe aquela era a hora de viver uma vida de aventuras, aquelas das quais eu sempre via nos jogos de RPG e nos animes?
A espera, de dois minutos, tornava-se pouco a pouco, horas que se arrastavam a fio...

Infelizmente, não houve nada. Não houve ninguém. Nenhum barulho, por mais que meu coração e minhas preces pedissem, nada, nadinha. Fiquei completamente decepcionada. Era bem pior do que rezar para a Virgem Maria para que ela me transformasse em Sakura Card Captors (dizia minha vó que, tudo que a gente pedisse com o coração pra Virgem Maria a gente conseguia, então eu nunca deixava de tentar...). Desapontada e triste, voltei para casa. Andando pela calçada cheia de grama e gravetos quebrados, pensava comigo “ser criança é uma merda... se eu fosse adulta nunca passaria por esse tipo de coisa”... Uma lágrima intrometida escorreu no canto do olho. Engoli o choro, cheguei em casa, e contei para minha irmã o acontecido.

“hahahaha, você achava MESMO que existia alma penada naquela casa? Vampiro? Lobisomem? O máximo que pode ter é alguns ratos e baratas, móveis abandonados, ou sei lá...cresce um pouco... você já tem nove anos”...

E aquele assunto morreu. As casas continuaram ali, por anos, sem que ninguém entrasse, sem que eu a encarasse, sem que ela participasse das minhas fantasias de criança, até que uma coisa aconteceu.

O episódio foi o mesmo. Comprar uma vassoura que não fosse vagabunda e que sustentasse o peso de um elefante sem se quebrar. Mas eu já tenho dezesseis anos. Então, pra mim, nem fazia sentido encarar aquela casa de novo achando que tem um monte de coisa que meu ceticismo em construção negava a existência. Andando do outro lado da calçada, olhei, furtivamente (como se uma criança dentro de mim ainda me desafiasse a acreditar) para aquela casa que tanto foi protagonista de lutas imaginárias no meu quintal. E a surpresa!! Alguém estava lá. Eu podia ver. Vestido branco, cabelos médios, era uma mulher. Instintivamente imaginei ser uma bruxa do bem. Censurei-me, na mesma hora, continuando meu caminho. Cheguei ao supermercado, escolhi a vassoura sem muito pensar, comprei, e no caixa, só imaginava a cena de ter visto alguém, pela primeira vez na vida, naquela casa mal assombrada...

Na saída, encontrei com aquela mulher me esperando na frente do supermercado. Conversou comigo, como se fôssemos melhores amigas. Atravessei a rua, deixei-a no endereço já tanto citado, e ela se despediu. Sumiu. Na minha frente.

Me assustei, minha barriga revirou. Talvez eu tenha ficado branca da cor do vestido dela. Meus lábios roxos e secos, minha visão embaçada e sem foco, contudo, conseguiram notar um pequeno bilhete no chão, escrito com letra bonita, cheirando melissa.

“Você está ficando adulta. Não perca sua alma de sonhadora. Não deixe de ser criança. Nem deixe de acreditar”

Olhei afoita para dentro da casa. Uma figura conhecida andando pelo quintal, piscou serelepe pra mim. Guardei o bilhete no meu bolso. E esse foi meu melhor presente.

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